Montevideo

“Houve uma vez uma cidade que nasceu murada e junto ao mar.

Nela se cruzavam todos os ventos.ciudad d montevideo 20

Foi pensada como tabuleiro de damas e resultou muito fiel e conquistadora, sendo forma própria de patriotismo. Lutou largamente contra um território indômito que lhe era hostil, mas que finalmente conseguiu lhe impor a condição de capital. Para isto teve que se entrincheirar atrás das muradas uma e outra vez, se enrolando na luta dos impérios, transformada assim numa nova Tróia cosmopolita. Teve até reuniões literárias, corridas de touros e um porto cheio de velas. Inclusive um dia passou uma gigantesca canhoneira pela rua principal, navegando lentamente sobre rolos de madeira, buscando o mar. Também houve intelectuais e dândis que olharam para ela com desprezo, como uma miserável aldeia, enquanto passeavam extravagâncias pelas esquinas. Logo foi invadida pelo assombro, quando terminou de cair o paredão e foram descobertas a areia, as praias, o futebol e os biógrafos. Foi nessa época que foi comparada com Atenas, com a Suíça e até com uma tacinha de prata. Acordou bruscamente da inocência, pelas chamas do Graf Spee afundando na frente; pela violência e pelo medo marcando a historia: os exílios, os insilios, a chuva de cinzas…

Finalmente, decidiu ser um circo pós-moderno, onde tem tango, candombe, luxo, miséria, memória e esquecimento. Isto é, uma cidade encantadora: ninguém pode escrever sobre ela sem amor, para bem o para mal.

É Montevidéu, a malbemquerida.”

            Ana Ribeiro